O Sabejé e a Mitologia da Cura: Um Estudo Exaustivo sobre o Ritual de Omolu nas Religiões Afro-Brasileiras
Resumo Executivo
O presente relatório constitui um estudo aprofundado sobre o ritual do Sabejé, uma prática de grande relevância nas religiões de matriz africana no Brasil, especialmente no Candomblé da Bahia. A análise abrange desde os fundamentos mitológicos do orixá Omolu/Obaluaiê, divindade das doenças e da cura, até a complexa manifestação social e cultural do ritual nos espaços urbanos. Uma distinção fundamental é estabelecida entre o Sabejé, um cortejo público de peregrinação e purificação, e o Olubajé, o banquete sagrado que encerra as celebrações.
O Sabejé atua como um ato de arrecadação de fundos e de anunciação para o Olubajé, representando a visita de Omolu às ruas da cidade, A pesquisa revela que o ritual está intrinsecamente ligado a um contexto histórico de epidemias, servindo como uma resposta espiritual e coletiva a crises de saúde pública.
Central à simbologia do Sabejé está a pipoca, ou doburu, que simboliza a cura e a limpeza, e o xaxará, um instrumento que "varre" as doenças. O cortejo, com suas vestimentas elaboradas, não é apenas uma procissão de fé, mas uma manifestação pública de identidade e resistência cultural que ressignifica o espaço urbano. O Sabejé, ao transcender o espaço privado do terreiro e se manifestar na paisagem urbana de Salvador, tornou-se um fenômeno culturalmente consolidado, reafirmando a presença e a vitalidade das tradições afro-brasileiras.
1. Introdução: O Orixá Omolu e a Centralidade do Ritual de Sabejé
O orixá Omolu, também conhecido como Obaluaiê, Obaluaê, Omulu ou Xapanã, é uma das divindades mais complexas e respeitadas do panteão iorubá nas religiões de matriz africana. Sua regência abrange domínios de profunda ambivalência: ele é o senhor da terra, da cura e da doença, transita entre os universos da saúde e da enfermidade, e carrega os mistérios que conectam esses dois estados. A sua saudação, "Atotô Obaluaiê," que significa "silêncio para o grande Rei da Terra," evoca um sentimento de reverência e respeito, um reconhecimento da sua presença poderosa e, para muitos, temida.
No contexto ritualístico, é crucial diferenciar dois termos frequentemente associados: Sabejé e Olubajé. O Sabejé é o cortejo público, uma peregrinação que simboliza a visita do orixá Omolu às ruas da cidade de Salvador. O termo, de origem iorubá, pode ser traduzido como "Sá" (caminhar/andar), "agbé" (esmola) e "jé" (comer/obter), o que indica seu propósito dual de movimentar-se pela cidade para a arrecadação de fundos. Este ritual atua como uma anunciação da festa principal, o Olubajé.
O Olubajé, por sua vez, é a festa anual, o "grande banquete do rei" (Olúgbàjé
) que ocorre no espaço privado dos terreiros, onde são servidas as comidas sagradas do orixá. A peregrinação do Sabejé é, portanto, uma etapa preliminar e essencial para a realização do banquete de saúde e fartura do Olubajé, fortalecendo a comunhão entre os terreiros e a comunidade. Para consolidar a compreensão dessas duas práticas, a Tabela 1 oferece um comparativo detalhado.
Tabela 1: Sabejé vs. Olubajé: Um Comparativo Ritualístico
Aspecto | Sabejé | Olubajé |
Finalidade | Coleta de donativos para o Olubajé, purificação pública, anunciação da festa. | Banquete sagrado, comunhão, celebração da colheita e gratidão ao orixá. |
Espaço | Espaço público (ruas, praças, avenidas). | Espaço privado do terreiro, barracão de festas. |
Elementos Chave | Tabuleiro com doboru, xaxará, elementos da roupa de Omolu, roupas brancas bordadas. | Diversas comidas servidas em folha de mamona, banquete para o Orixá. |
Interação | Interage diretamente com o público, que oferece doações e se purifica com as pipocas. | Ocorre dentro da comunidade de fé, com a partilha da comida do orixá e comunhão entre os fiéis e as divindades. |
2. Fundamentos Mitológicos e Narrativas Sagradas de Omolu
A compreensão do ritual do Sabejé é incompleta sem o conhecimento da rica mitologia do orixá Omolu. Os mitos de origem de Omolu narram que ele, filho de Nanã e Oxalá, nasceu com o corpo coberto de feridas, uma consequência das tensões entre seus pais. Desgostosa com a aparência do filho, Nanã o abandonou à beira do mar, onde ele foi encontrado por Iemanjá, a rainha do mar. Iemanjá o adotou, curou suas chagas com a água salgada do mar e o alimentou com pipocas, ensinando-lhe o dom da cura.
Omolu passou a usar um manto de palha (azé
) para esconder as marcas de sua doença, mantendo-se em isolamento e tornando-se introspectivo. Essa narrativa mítica serve como a base para a sua dualidade como orixá: aquele que, por ter experimentado a doença, detém o poder de curá-la.
A peregrinação do Sabejé reflete um dos atributos mais marcantes de Omolu: sua característica de divindade andante. A tradição de Omolu como um orixá andarilho remonta à expansão de seu culto pelo território iorubá na África, onde ele atravessou fronteiras físicas e culturais, punindo os malfeitores com a varíola e curando os que solicitavam sua misericórdia.
A procissão de Sabejé de sete dias pelas ruas de Salvador é uma representação simbólica dessa jornada mítica, na qual ele "varre e coleta as doenças e as moléstias," proporcionando cura e vida à comunidade.
A saudação "Atotô," que significa "silêncio, o rei está em terra," é uma das expressões mais conhecidas associadas a Omolu. O silêncio imposto por essa saudação é um ato de profundo respeito e reverência. Omolu é o orixá que caminha entre a vida e a morte, entre a saúde e a doença, carregando mistérios que transcendem a compreensão humana.
Diante de sua presença, o silêncio se torna a única reação apropriada, É um ato de humildade e cautela, um reconhecimento da grandiosidade e do poder do orixá que é ao mesmo tempo temido e amado. A saudação, portanto, não é meramente uma formalidade; ela estabelece um estado de prontidão e respeito, sinalizando que algo sagrado e profundo está se manifestando.
O sincretismo religioso de Omolu/Obaluaiê com os santos católicos São Lázaro e São Roque é um dos pontos notáveis da sua devoção no Brasil.
Ao associarem suas divindades ancestrais a figuras cristãs, os africanos escravizados podiam continuar a praticar sua fé de forma disfarçada, evitando perseguições. São Lázaro, coberto de chagas em sua lenda, e São Roque, protetor contra a peste, compartilhavam atributos temáticos com Omolu, o orixá que lida com feridas e doenças. Essa prática não apenas salvaguardou as crenças, mas também demonstrou a notável capacidade de adaptação e a resiliência das religiões de matriz africana.
3. O Ritual de Sabejé: Análise Detalhada do Cortejo Público
O ritual do Sabejé tem início no espaço físico e privado dos terreiros de Candomblé, geralmente na primeira segunda-feira de agosto, mês em que se homenageia a divindade. Essa fase inicial, que ocorre nos "espaços extramuros das casas de santo," envolve uma "preparação ritualística do conjunto material" que será levado para o espaço público.
Uma vez concluída essa preparação, o cortejo sagrado sai em peregrinação. A procissão, que pode durar sete dias, é caracterizada pela presença de um iniciado que carrega um tabuleiro na cabeça, adornado com objetos sagrados de Omolu, como o xaxará e elementos de sua roupa, feitos de palha da costa, búzios e contas.
O iniciado é acompanhado por outros devotos, muitas vezes mulheres em trajes de baiana, que portam amplos cestos com doburu (pipoca) e fatias de coco. A vestimenta, elaborada com rendas e bordados em um branco "alvíssimo," demonstra a estética e a riqueza da celebração.
A natureza pública do Sabejé é um de seus aspectos mais significativos. Ao se manifestar nas ruas e praças da cidade do São Salvador, o cortejo interage diretamente com a população, que é convidada a participar da comensalidade e a retribuir com doações em dinheiro. O ato de levar a fé para fora do terreiro é uma demonstração de sua força e vitalidade, especialmente em um contexto histórico em que essas manifestações foram, por vezes, criminalizadas.
A consolidação do Sabejé na paisagem urbana a partir das décadas de 1960 e 1970 transformou o ritual em um fenômeno culturalmente reconhecido em Salvador, associado ao conceito de "baianidade". A procissão, portanto, não é apenas um ato de fé, mas um ato de resistência e visibilidade cultural que reafirma a identidade afro-brasileira e ressignifica o espaço público como um local de celebração e resistência.
4. O Olubajé: O Banquete de Saúde e Fartura
O Olubajé, que se traduz do iorubá como "o grande banquete do rei," é a culminação das celebrações anuais de Omolu. Esta cerimônia, realizada na maioria dos terreiros de Candomblé, tem como objetivo principal agradar o orixá por meio da oferenda de comidas.
Além de ser uma homenagem, o banquete é visto como um momento de profunda importância, onde a comunidade pede a Omolu que retire as doenças e os males sociais, promovendo saúde, cura e perdão.
A comensalidade sagrada é o ponto central do ritual. Durante o Olubajé, um vasto cardápio com dezenas de preparos culinários, como bolas de inhame, acarajés, abarás, doburus, e carnes de aves, é servido aos participantes. As comidas são dispostas em folhas de mamona que funcionam como pratos individuais, e os convidados devem comer com as mãos.
O ato de comer a "comida do Orixá" é uma forma de comunhão, e é uma regra fundamental que se deve comer tudo e não desperdiçar "um único grão". Essa prática simboliza a partilha da abundância da colheita e a reciprocidade entre os deuses e os homens. A comensalidade é um processo de comunicação profunda e simbólica, onde o alimento é a própria manifestação do orixá.
Neste contexto, a liderança do babalorixá ou da iyalorixá é de extrema importância. Eles são os responsáveis por oferecer o banquete e mediar a relação entre a comunidade e Omolu. A rejeição dos alimentos servidos pode ser interpretada como uma falta de respeito, "provocando a ira do Orixá".
Isso ressalta a função central dessas lideranças na manutenção do axé (energia vital) da casa e na garantia de que o ritual seja realizado com a devida honra e reverência. A partilha da comida do banquete sagrado é um ato que fortalece os laços comunitários e reafirma a interdependência entre os fiéis e suas divindades.
5. Simbolismo e Elementos Sagrados do Ritual
O Sabejé e o Olubajé são rituais que se constroem através de uma rica simbologia material, onde objetos e alimentos perdem suas conotações cotidianas para adquirir uma eficácia sagrada. A Tabela 2 sintetiza os principais elementos rituais e seus significados.
Tabela 2: Elementos Rituais e Suas Simbologias
Elemento | Simbolismo | |
Pipoca (Doburu) | Purificação, cura e vida. É conhecida como a "flor do Velho," simbolizando a transformação das feridas de Omolu em flores brancas. O ato de "passar pelo corpo" com as pipocas é um ritual de limpeza e busca de contato sagrado com o orixá. | |
Xaxará | Cura e remoção de doenças. É uma "vassoura estilizada" de fibras de coqueiro que Omolu utiliza para varrer as doenças e os males sociais para fora da comunidade. | |
Tabuleiro | Representa a peregrinação e o transporte dos elementos sagrados do orixá pelas ruas. | |
Roupa Branca | Símbolo de pureza, paz, e o "alvíssimo branco" do orixá. | richelieu e rendas demonstram a estética e a devoção dos participantes. |
Folha de Mamona | Serve como prato no banquete do Olubajé, unindo a vida (o alimento) e a morte (a folha, que é venenosa) em um ato de comunhão. |
A pipoca, ou doburu, é o alimento ritualístico mais proeminente. Ela é preparada de forma ritualística, muitas vezes com milho-alho estourado em areia de praia aquecida, com uma pitada de azeite de dendê. A lenda de Omolu, que teve suas feridas transformadas em "chuva de pipocas" por Oyá, explica a profunda conexão simbólica do alimento com a cura e a transformação. Essa dualidade — do grão de milho seco e sem vida ao alimento que se expande e se torna branco — é uma poderosa metáfora de vida e purificação.
O xaxará, por sua vez, é o cetro e instrumento de cura de Omolu. Como uma vassoura estilizada, ele representa o poder do orixá de coletar e varrer as doenças, tanto físicas quanto sociais, do corpo e da comunidade. O objeto, muitas vezes adornado com búzios e contas, é um símbolo da autoridade de Omolu sobre os elementos da terra e seu domínio sobre a cura e a enfermidade.
6. O Contexto Histórico e Sociocultural: O Ritual como Fenômeno Urbano em Salvador
A história do Sabejé no Brasil está profundamente enraizada em crises de saúde pública. Registros de 1974, baseados na fala de Elízio Plácido, membro do terreiro Bogum, indicam que o ritual teria se iniciado em Salvador após um surto de varíola em 1919, que dizimou um número considerável de crianças e idosos. O Sabejé, com sua peregrinação para coletar e varrer as doenças, emergiu como uma resposta cultural e espiritual a essa epidemia, tornando-se uma forma de "medicina do pobre".
Em um contexto onde o acesso à medicina formal era limitado ou inexistente para as populações marginalizadas, a comunidade de fé recorreu a Omolu, o orixá da doença e da cura, para pedir intercessão e proteção. O ritual, com a distribuição simbólica da pipoca de cura e a ação de "varrer a praga" com o xaxará, reflete uma abordagem holística e comunitária à saúde que contrasta com o individualismo ocidental. Não se trata apenas de curar o indivíduo, mas de purificar a comunidade como um todo.
A divulgação do Sabejé na imprensa baiana, especialmente a partir das décadas de 1960 e 1970 , mostra um processo de consolidação e visibilidade do ritual na paisagem urbana. Embora alguns relatos jornalísticos da época pudessem ter uma natureza "sensacionalista" e se basear em noções preconceituosas de "primitivo-exótico" , a publicidade do ritual ajudou a afirmar a presença e a identidade das religiões afro-brasileiras em Salvador, consolidando o Sabejé como uma expressão central da cultura afro-baiana.
7. Diferenças e Semelhanças no Culto a Omolu
O culto a Omolu/Obaluaiê, e consequentemente os rituais a ele associados, manifestam-se de forma distinta nas diversas nações de Candomblé e na Umbanda. No Candomblé, o Olubajé é uma das festas mais importantes do calendário anual, e o culto é mantido com grande fidelidade às tradições africanas. Embora o rito mantenha sua essência, há variações entre as nações.
No Candomblé de Angola, por exemplo, os inkices Kavungo e Nsumbu possuem atributos semelhantes a Omolu, refletindo a adaptação e o sincretismo interno da religião. As diferenças entre as nações Ketu, Angola e Jeje também se manifestam no dialeto, nos toques de atabaque e nas cantigas, embora o propósito e a essência do culto a Omolu como senhor da terra e das doenças permaneçam os mesmos.
Na Umbanda, a visão e o culto de Omolu são notavelmente diferentes. Ele pode ser classificado como um "Orixá Cósmico" no polo negativo da Linha da Geração, que polariza com Iemanjá. Ele rege o momento da morte e atua como o "guardião divino dos espíritos caídos," conduzindo-os ao seu devido lugar após o desencarne, sem puni-los.
A percepção de Omolu como um orixá "perigoso" é descrita como um fruto de interpretações incorretas. No entanto, em outras vertentes da Umbanda, ele pode ser visto como um "espírito falangeiro," e não um orixá no sentido estrito do Candomblé. O ritual da "cura do milho de pipoca," que envolve passar pipocas quentes pelo corpo do enfermo, é uma prática de cura semelhante à do Candomblé, mas adaptada à cosmologia umbandista, que enfatiza a caridade e a manifestação de guias espirituais. Essa diferenciação ilustra como um mesmo arquétipo divino é reinterpretado e vivenciado em sistemas de crenças distintos, mas com o mesmo propósito fundamental de cura e amparo.
8. Cânticos e Orações: A Linguagem do Sagrado
A comunicação com o orixá Omolu durante o Sabejé e o Olubajé é fundamentalmente mediada por cânticos (xirês) e orações (orikis), em sua maioria em língua iorubá.
Os cânticos narram os feitos de Omolu, celebram seu poder de cura e castigo e pedem por sua proteção, A letra de cânticos como "Toco opanijé para oferecer / Ao senhor obaluaê" e "è arayè Olubajé, Olubajé ajeun nbó," que significa "povo da terra, o senhor aceitou comer, vamos comer e adorá-lo," demonstra como as invocações são uma forma de diálogo ritualístico. O canto reforça a memória religiosa, transmite ensinamentos e fortalece a adesão do adepto à dimensão simbólica do culto. A linguagem do sagrado, transmitida por meio da música, é uma peça-chave na manutenção e na transmissão da fé.
9. Conclusão: A Permanência e a Relevância do Sabejé na Cultura Afro-Brasileira
O ritual do Sabejé é um fenômeno de múltiplas camadas que transcende a mera prática religiosa. É um ritual de cura, uma resposta cultural a epidemias, um ato de comunhão e um meio de afirmação de identidade. A peregrinação de Omolu nas ruas de Salvador, anunciando o banquete do Olubajé, não é apenas um ato de fé; é uma manifestação pública de resiliência e visibilidade de uma tradição que sobreviveu e se fortaleceu.
O Sabejé e o Olubajé reafirmam a importância da comensalidade e da partilha como valores comunitários que se opõem ao individualismo. O ato de dar e receber, seja doações ou pipocas, estabelece uma cadeia de reciprocidade que fortalece os laços sociais dentro e fora do terreiro. A permanência do ritual, que se consolidou na cultura baiana, garante a transmissão da memória religiosa e dos valores ancestrais, perpetuando o axé de Omolu, o orixá que ensina que "a doença nos ensina que saúde é um bem precioso". Em última análise, o Sabejé é um testemunho da força, da beleza e da adaptabilidade das religiões de matriz africana, que continuam a desempenhar um papel vital na cultura e na identidade do povo brasileiro.
0 Comentários